terça-feira, 4 de setembro de 2018

Como é a proteção contra incêndio no Museu de História Natural de Paris, um dos maiores do mundo

Este texto foi escrito por Daniela Fernandes De Paris para a BBC News Brasil; 4 de setembro de 2018 às 17:14:45 e atualizado às 17:30:13.

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[Museu em Paris é um dos maiores do mundo, ao lado do de Londres | Foto: Divulgação/MNHN]

Alarmes e detectores de fumaça ligados a um posto de comando computadorizado e monitorado 24 horas por dia, agentes de segurança treinados para combater incêndios sempre presentes no local, extratores de fumaça, sistemas de "compartimentagem" dos espaços com portas corta-fogo e divisórias nas escadas para evitar que o fogo se alastre fazem parte do esquema de segurança contra incêndios dos museus franceses, como o de História Natural de Paris, que possui o mesmo tipo de acervo do Museu Nacional do Rio, destruído pelo fogo no domingo.

Há também exercícios regulares de simulação de incêndios, que contam ainda com operações de socorro a vítimas de acidentes desse tipo.

O Museu de História Natural de Paris é um dos maiores do mundo, junto com o de Londres, com um acervo de 68 milhões de espécimes de coleções que mostram a diversidade da natureza.

Apenas na Grande Galeria da Evolução - um dos pontos fortes do museu, com 6 mil metros quadrados de exposições e que apresenta uma sala com espécies extintas ou ameaçadas - são cinco agentes de segurança treinados e voltados especificamente para o combate a incêndios nos horários de abertura e dois à noite.

Isso além dos 70 agentes de segurança que circulam pelo local.

"Investimos significativamente nos últimos anos em sistemas de segurança contra incêndios", disse à BBC News Brasil Bruno David, presidente do Museu de História Natural de Paris, sem revelar o montante total.

'A tragédia no Rio nos leva a refletir sobre a questão'

Na galeria de paleontologia, de 1898, a única do museu que está menos conservada e precisa ser renovada, foi investido 1 milhão de euros (cerca de R$ 5 milhões) nos últimos cinco anos no sistema de segurança contra incêndios, com os mesmos equipamentos e alarmes conectados ao posto de comando, extratores de fumaça e portas corta-fogo que já existiam em outros espaços do museu.

Outros 7 milhões de euros (cerca de R$ 35 milhões) devem ser investidos para refazer o teto da galeria de paleontologia e evitar infiltrações que possam causar, por exemplo, curtos-circuitos.

[Em museu na capital francesa, há exercícios regulares de simulação de incêndios]

"Há sempre uma maneira de intervir no prédio. Se não temos dinheiro para renovar completamente, podemos reforçar a segurança para preservar o que está dentro", afirma David.

"No Rio, o acidente aconteceu antes da renovação e agora só podemos chorar", completa.

"A tragédia no Rio nos leva a refletir sobre a questão", diz David, referindo-se ao funcionamento do plano de segurança do museu parisiense contra incêndios e eventuais riscos que sempre podem surgir.

O sistema de segurança do museu também conta com várias dezenas de câmeras, segundo a direção.

"O importante não é só ter câmeras. É ter alarmes detectores de fumaça e fogo ligados ao posto de comando central para que possamos supervisionar cada galeria", diz Pierre Debreuil, diretor-geral do Museu de História Natural de Paris.

"Penso que se houvesse no museu do Rio o sistema de compartimentagem, para evitar a propagação do fogo, o museu todo não teria queimado ao mesmo tempo", diz ele, ressaltando que não conhece o sistema do museu carioca e que as causas do incêndio não são ainda conhecidas.

"Com o sistema de compartimentagem, com portas corta-fogo e divisórias específicas nas escada, o fogo não se alastra por todos os lados, limitando os riscos de propagação do incêndio", destaca Debreuil.

"Ninguém está a salvo de um incêndio como o do Rio, é possível que isso aconteça. Mas temos sistemas de segurança que normalmente nos permitem agir imediatamente em caso de risco de incêndio", afirma o diretor-geral.

['Ninguém está a salvo de um incêndio como o do Rio, é possível que isso aconteça. Mas temos sistemas de segurança que normalmente nos permitem agir imediatamente em caso de risco de incêndio', diz David | Foto: Divulgação/MNHN]

O Museu de História Natural pode ter corrido um risco mais elevado de incêndio no passado.

Antes da renovação da Grande Galeria da Evolução, iniciada em 1989 (ela foi reaberta em 1994), o local estava, segundo o presidente, em "estado catastrófico". Chovia dentro, mas a eletricidade havia sido cortada para evitar curto-circuitos.

Em dezembro passado, houve um pequeno incêndio em uma área técnica do Carrousel du Louvre, onde há lojas e restaurantes, e foi rapidamente controlado.

Perda irreparável

Para David, o incêndio do Museu Nacional do Rio representa uma perda irreparável para o Brasil e para a humanidade. "É um patrimônio inestimável que desapareceu e que não poderemos substituir", diz o diretor do museu parisiense.

"Não podemos substituir um pássaro por outro da mesma espécie. Cada um carrega informações históricas do período em em que viveu e revela as condições ambientais da época. Tudo isso foi irremediavelmente perdido."

Segundo David, o que poderá ser eventualmente substituído pelo museu carioca deverá representar "custos gigantescos."

"É mais do que um patrimônio científico. É um patrimônio que diz respeito à história das ciências e da humanidade, a maneira como os homens descobriram a biodiversidade brasileira. Todos esses aspectos foram destruídos", afirma.

[Unesco lamentou a 'perda inestimável para a humanidade da coleção excepcional' do Museu Nacional do Rio.]

O diretor do Museu de História Natural de Paris se diz muito "triste" com a perda também de correspondências científicas entre pesquisadores europeus e sul-americanos.

Para ele, o Museu Nacional do Rio não tem a importância internacional dos de Paris, Londres ou Washington com acervos do mesmo tipo, mas "é um grande museu da América do Sul", que estaria, na sua avaliação, entre os 15 maiores do mundo.

A Unesco, organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, também lamentou a "perda inestimável para a humanidade da coleção excepcional" do Museu Nacional do Rio.

Em entrevista à BBC News Brasil, Ieng Srong, chefe da divisão do patrimônio mobiliário e museus da organização, disse que o Brasil deverá "tirar lições dessa tragédia e se voltar para o futuro", identificando as razões do incêndio e tomando medidas preventivas.

Segundo ele, o Brasil desempenhou um "papel-chave" na adoção, em 2015, da Recomendação Referente à Proteção e Promoção dos Museus da organização.

O Brasil, diz Srong, foi o "motor" da elaboração dessa recomendação e foi o primeiro país a sediar o encontro sobre essa recomendação internacional.

O País enviou recentemente à Unesco um relatório sobre a aplicação no país das medidas previstas pela recomendação. Ele será analisado pela entidade nos próximos meses.

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Imagens vide: "Divulgação/MNHN", "GETTY IMAGES", "Foto: Divulgação/MNHN" e "AFP" respectivamente.

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Museu Nacional: Como fotos pessoais podem ajudar a resgatar a memória destruída pelo fogo

Este texto foi escrito por Leticia Mori da BBC News Brasil em São Paulo; e publicado dia 4 de setembro de 2018 às 13:09:44 e atualizado às 13:25:33.

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[Museu Nacional ainda mensura os danos causados pelo incêndio a seu acervo]

Nas primeiras horas após o incêndio que atingiu o Museu Nacional no domingo, alunos do curso de museologia na Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) começaram a conversar no WhatsApp sobre reunir as fotos que tinham do espaço.

A ideia era tentar manter com as imagens a memória do acervo de mais de 20 milhões de itens que se perdia em meio ao fogo de grandes proporções.

Os alunos – do primeiro ao último semestre do curso – também divulgaram a ideia para amigos, e a mensagem viralizou. Até às 11h da manhã de segunda-feira, tinham recebido mais de 5 mil e-mails, com milhares de fotografias.

"Nossa ideia é trabalhar em conjunto com o Museu Nacional, estamos esperando eles responderem. É nossa forma de ajudar, já que eles vão ter um monte de coisa para resolver agora", diz Luana Santos, de 28 anos, aluna do 4º período de museologia da Unirio e uma das integrantes da iniciativa.

A ideia é manter essas fotos em um acervo digital que o público possa acessar, mas os alunos não decidiram o formato nem conseguiram catalogar as imagens que receberam.

"Ainda estamos atônitos e cansados, vários colegas estavam agora na Cinelândia (onde houve uma manifestação de luto pelo descaso com o museu)", diz a estudante.

[Operação de combate ao fogo foi feita durante a noite]

Luana diz que o que se perdeu "é insubstituível", e que a ideia é lembrar não apenas do acervo, mas da tragédia que levou à destruição da maior parte dele. "Não podemos deixar isso acontecer de novo", afirma ela.

A iniciativa é importante não porque irá preencher o vazio deixado pelo incêndio, mas porque amplia a discussão sobre o descaso com a cultura no Brasil, segundo a professora da USP Giselle Beiguelman, especialista em preservação de arte digital.

"A memória da tragédia não é só as imagens do fogo, mas do quão mobilizatório isso se tornou. Espero que isso de fato produza uma corrente coletiva de conscientização" diz ela.

Memória da tragédia

"É obvio que essas imagens não vão recuperar o museu. Mas ao menos criam uma memória desse presente absurdo que estamos vivendo, de um museu desse porte ir ao chão em poucas horas", afirma Beiguelman.

[Incidente no Museu Nacional foi o oitavo incêndio em dez anos a atingir prédios do patrimônio cultural e científico do país]

Beiguelman afirma que a súbita mobilização gerada pela iniciativa dos estudantes deixa ainda mais claro que "o futuro da nossa memória passa por esses registros, que vão criando esses arquivos coletivos e espontâneos".

A digitalização, no entanto, nunca substitui a interface pessoal, diz ela.

"Ver um fóssil ao vivo é uma coisa, outra coisa é ver a foto. Estamos diante de uma tregédia que levou milhares de anos pras cinzas. É irreparável, não tem como cicatrizar, uma vergonha para a nossa história. Privamos o mundo de uma parte do seu passado", afirma Beiguelman.
Calculando as perdas

No caso do Museu Nacional, as imagens dos alunos que estão sendo reunidas – enviadas por visitantes e tiradas em maior parte com celular – não seriam suficientes para fazer um registro virtual 3D ou em alta definição dos itens que foram destruídos. Esse tipo de digitalização precisa ser feita com muito cuidado, com equipamento específico, com o acervo ainda intacto.

O custo, além disso, é elevado. "É caro porque o patrimônio é delicado, e fica em uma mídia que é programada para obsolescência. Não pode ser armazenado em um serviço comercial (como YouTube ou Dropbox, por exemplo), pois eles podem acabar de uma hora para outra", pondera Beiguelman.

[Estudantes organizaram ato na Cinelândia após incêndio no museu]

A digitalização normalmente é uma ferramenta de pesquisa, o que também não pode ser feito com as imagens enviadas pelos visitantes.

Muitas peças do acervo eram itens únicos – esqueletos de dinossauros, múmias egípcias, utensílios produzidos por civilizações ameríndias durante a era pré-colombiana.

Em nota, o Museu Nacional afirmou que ainda está mensurando os danos ao acervo.

Um dos únicos itens até agora que se sabe que restaram do acervo do prédio central é o meteorito Bendegó. As coleções de botânica, parte da zoologia e a biblioteca central também não foram perdidas, pois estavam em um prédio anexo.

Localizado na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, o Museu Nacional é mais antigo do país e uma das instituições científicas mais importantes do Brasil. Fundado por Dom João 6º no dia 6 de agosto de 1818, acabara de completar 200 anos - mas tinha itens de milhões de anos.

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Imagens vide: "AFP", "EPA", "AFP" e "ANTONIO LACERDA/EPA".

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Onde ficará a maior estátua do mundo, prestes a ser concluída

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45406867

Museu Nacional: O mistério da múmia que 'provocava transe' nos anos 60 e foi consumida pelo fogo

Texto escrito por Luis Barrucho da BBC News Brasil em Londres; e publicado dia 4 de setembro de 2018.
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45403765

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[Kherima tinha os membros enfaixados separadamente, um estilo diferente do que era comum na época em que fora embalsamada]

Entre os 20 milhões de itens que compunham o acervo do Museu Nacional e que foram consumidos pelo fogo no incêndio que começou neste domingo, um em particular despertava grande curiosidade entre os visitantes - e não apenas por sua raridade.

A múmia egípcia Kherima, com cerca de 2 mil anos, foi trazida ao Brasil em um caixote de madeira em 1824 pelo comerciante Nicolau Fiengo. Dois anos depois, foi oferecida em leilão e arrematada por Dom Pedro 1º, que a doou ao então Museu Real, fundado em 1818 e instalado à época no Campo de Santana, na região central da cidade do Rio de Janeiro.

Kherima destacava-se por apresentar membros enfaixados individualmente e decorados sobre linho, o que lhe dava aparência similar à de uma boneca - um estilo de mumificação diferente do da época, menos detalhista, em que os corpos eram "empacotados". Além dela, há apenas oito múmias desse tipo no mundo.

"Esse era um exemplar muito importante, por conta do tipo de enfaixamento, que preservava a humanidade do corpo; no caso, o contorno do corpo feminino", diz à BBC News Brasil Rennan Lemos, doutorando em Arquelogia na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e pesquisador-associado do Laboratório de Egiptologia do Museu Nacional (Seshat).

No entanto, não era apenas essa característica que atiçava o interesse do público. Relatos de quase 60 anos atrás dão conta que Kherima teria provocado transe em quem se aproximava dela.

Na década de 1960, por exemplo, uma jovem teria tocado os pés da múmia e, fora de si, dito que ela pertencia a uma princesa de Tebas chamada Kherima, assassinada a punhaladas.

Já outras pessoas afirmaram ter tido um "mal súbito" quando estavam próximas ao corpo.

Kherima já havia se tornado objeto de culto quando o professor Victor Staviarski, membro da Sociedade de Amigos do Museu Nacional, ajudou a reforçar o misticismo em torno dela.

Controversos, seus cursos de egiptologia e escrita hieroglífica ao som de óperas como Aida, de Giuseppe Verdi, incluíam a presença de médiuns e sessões de hipnose coletiva - ao lado da múmia. Naquela época, alunos podiam tocá-la - e as reações inesperadas que resultavam desse contato alimentaram o imaginário popular.

"Algumas pessoas diziam que conversavam com a múmia e ela respondia. Em uma dessas conversas, ela teria dito que seria uma princesa do Sol, mas isso não faz o menor sentido científico, porque esse não era um título do Egito Antigo", acrescenta Lemos.

Técnicas de tomografia permitiram verificar que Kherima era filha de um governador de Tebas, importante cidade do Egito Antigo. Segundo a pesquisa, ela tinha entre 18 e 20 anos e viveu durante o Período Romano no Egito, entre os séculos 1 e 2. A causa de sua morte nunca foi identificada.

O processo foi acompanhado na época por Sheila Mendonça, ex-aluna de Staviarski, atualmente vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Escola de Saúde Pública da Fiocruz. Contatada pela BBC News Brasil, ela afirmou estar "muito emocionada" e sem condições de falar por causa da "enorme perda" do acervo do museu.

[Museu Nacional do Rio pegou fogo na noite de domingo]

Extensão da tragédia

Um incêndio de grandes proporções atingiu o Museu Nacional na noite do último domingo, considerado a antiga instituição científica do Brasil e maior museu de História Natural e Antropologia da América Latina.

Além de Kherima, outros importantes objetos teriam sido consumidos pelas chamas, como o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, batizado de Luzia; o esqueleto Maxakalisaurus topai, primeiro dinossauro de grande porte a ser montado no país, e o Trono de Daomé, que pertenceu ao rei africano Adandozan (1718-1818) e foi doado por embaixadores do monarca ao príncipe regente Dom João 6º, em 1811.

Outra múmia, o da cantora-sacerdotisa egípcia Sha-amun-en-su, também foi reduzida a cinzas. Foi um presente que Dom Pedro 2º recebeu, em 1876, em sua segunda visita ao Egito.

Com mais de 700 peças, a coleção de arqueologia egípcia do Museu Nacional era considerada a maior da América Latina e a mais antiga do continente - com múmias e sarcófagos. Acredita-se que todo o acervo tenha sido perdido.

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Imagens vide: "???" e "REUTERS" repectivamente.

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Ministro da Cultura culpa governos do PT e UFRJ por falta de investimentos no Museu Nacional

Este texto foi escrito por Nathalia Passarinho* da BBC News Brasil em Londres:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45398965
Publicado dia 4 setembro 2018, às 07:55:22 e atualizado às 08:09:03.
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[Em entrevista à BBC News Brasil, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, culpou os governos do PT e a UFRJ pela situação do museu e a escassez de investimentos]

Há mais de uma década que pesquisadores alertam para a falta de recursos e a precariedade do prédio do Museu Nacional, que até ser destruído pelo incêndio de domingo abrigava o maior acervo científico do Brasil. Mas a quem cabia tomar uma providência para evitar a tragédia?

Em entrevista à BBC News Brasil, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, culpou os governos que "levaram o país à pior recessão da história", em referência ao Partido dos Trabalhadores (PT), e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) pela situação do museu e a escassez de investimentos.

O Museu Nacional é vinculado à UFRJ, que, por sua vez, é mantida com recursos do governo federal.

"De dois anos para cá, repasses foram reduzidos em várias áreas porque os governos anteriores quebraram o Brasil. Agora, é importante dizer que quem determinava quanto ia ao Museu Nacional era a UFRJ, não era o governo federal nem o Ministério da Educação", disse. A BBC News Brasil tentou contato com a assessoria da UFRJ, que não respondeu até a publicação desta reportagem.

Questionado se o atual governo federal não teria parcela da responsabilidade diante da estagnação no orçamento da UFRJ, ele ressaltou que ajudou na negociação dos R$ 21 milhões que o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) liberaria em novembro para renovar o museu.

"Eu acho que esses problemas foram historicamente ignorados, mas não no meu período como ministro da Cultura. Nós tentamos ajudá-los a achar fundos para viabilizar a revitalização da instituição. E conseguimos os R$ 21 milhões para a revitalização, mas infelizmente o contrato foi assinado no dia 6 de junho, e o dinheiro não chegou antes do que aconteceu ontem."

[Para ministro da Cultura, museu e universidade deveriam ter corrido atrás de outras fontes de financiamento]

Nos últimos dois anos, os gastos da UFRJ ficaram estagnados. Em 2016, a universidade gastou R$ 3,9 bilhões. Em 2017, foram liquidados cerca de R$ 4 bi - em valores já corrigidos pela inflação. Neste ano, até agora os gastos foram de R$ 2,45 bilhões, segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) levantados pela BBC News Brasil.

Já os gastos totais do Museu Nacional caíram de R$ 480 mil em 2016 para R$ 445,5 mil em 2017, em valores corrigidos pela inflação. Em 2018, o Museu Nacional gastou R$ 268,4 mil até o começo de agosto.

Para o ministro Sá Leitão, museu e universidade deveriam ter corrido atrás de outras fontes de financiamento.

"Eles poderiam ter tentado atrair empresas privadas, poderiam tentar financiamentos ou operações de venda de imóveis e terrenos. É fácil transferir a responsabilidade para os outros, mas se você gerencia algo, você é responsável por isso."

Na noite de segunda-feira, Sá Leitão, ao lado do ministro da Educação, Rossieli Soares, anunciou a liberação imediata de R$ 10 milhões à UFRJ para a realização de obras emergenciais no museu para garantir a segurança e preservação da estrutura do prédio.

Leia, a seguir, trechos da entrevista:

BBC News Brasil - Ao longo de vários anos, diversos relatórios apontaram para as precariedades do prédio do Museu Nacional e a falta de investimentos. Um Relatório de 2016 da Biblioteca Nacional, por exemplo, falou do risco de que parte do teto caísse sobre a cabeça dos pesquisadores. Esses problemas não foram ignorados pelos governos anteriores e por este?

Sérgio Sá Leitão - Eu acho que esses problemas foram historicamente ignorados, mas não no meu período como ministro da Cultura.

O Museu Nacional é gerenciado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nós tentamos ajudá-los a achar fundos para viabilizar a revitalização da instituição.

Conseguimos os R$ 21 milhões para a revitalização, mas infelizmente o contrato foi assinado no dia 6 de junho, e o dinheiro não chegou antes do que aconteceu ontem. Fiz o que estava ao meu alcance, mas não posso responder por administrações anteriores.

BBC News Brasil - Em 2004, o então secretário de Energia do Estado do Rio disse que o prédio pegaria fogo eventualmente. Mas o que vemos são as diferentes esferas da administração empurrando responsabilidade uma para a outra. De quem é, então, a responsabilidade neste caso?

Sá Leitão - Os gestores têm responsabilidade direta sobre aquilo que é da sua competência. Nessa gestão do Ministério da Cultura, nós somos parte da solução, não parte do problema.

Estamos resolvendo problemas criados em gestões anteriores. Estamos viabilizando obras que estavam paradas e se arrastavam desde 2009, 2010, 2011, saneando convênios parados há anos, pagando editais de 2013 que não foram pagos.

Temos um histórico de negligência, má gestão, populismo, e temos procurado resolver os problemas de maneira objetiva e concreta.

[Grande parte dos 20 milhões de itens guardados no Museu Nacional, que incluia a maior coleção egípcia da América do Sul, foi destruída no incêndio]

BBC News Brasil - Os repasses às universidades federais foram reduzidos ou ficaram estagnados nos últimos anos, inclusive aqueles direcionados à UFRJ, responsável pelo financiamento do Museu Nacional. O governo federal não tem responsabilidade, portanto?

Sá Leitão - De dois anos para cá, repasses foram reduzidos em várias áreas, porque os governos anteriores quebraram o Brasil.

Levaram o país à pior recessão da história, em 2015 e, em 2016, ao maior déficit fiscal da história. É uma grande situação de descalabro.

Isso fez com que a capacidade de investimento do governo federal fosse reduzida. Várias medidas foram tomadas no sentido de fazer o Estado brasileiro retomar a capacidade de investimento, mas isso é um processo.

Ainda estamos pagando o descalabro das gestões anteriores. Agora, é importante dizer que quem determinava quanto ia ao Museu Nacional era a UFRJ, não era o governo federal nem o Ministério da Educação. O governo federal determinava quanto a UFRJ receberia. Agora, quanto seria destinado para o Museu Nacional, era do âmbito da esfera da UFRJ.

BBC News Brasil - Mas tendo menos recursos do governo federal para UFRJ, é natural imaginar que haveria menos repasses da UFRJ ao museu...

Sá Leitão - Se em menos de um ano nós conseguimos obter R$ 21,7 milhões para o Museu Nacional (em financiamento do BNDES), por que a diretoria da universidade não foi atrás desse dinheiro antes?

Eles poderiam ter tentado atrair empresas privadas, poderiam tentar financiamentos ou operações de venda de imóveis e terrenos. É fácil transferir a responsabilidade para os outros, mas, se você gerencia algo, você é responsável por isso.

[Na noite de segunda, governo anunciou liberação de R$ 10 milhões para a realização de obras emergenciais no prédio]

BBC News Brasil - Especialistas criticam o uso da Lei Rouanet dizendo que um volume maior desses recursos deveria ir para recuperação de patrimônio histórico. O senhor sempre defendeu que os recursos do incentivo fiscal fossem para usados projetos com valor artístico, mas também comercial. Como vê essa crítica?

Sá Leitão - Acho que é uma crítica que não procede e que está baseada na falta de números e de compreensão sobre o funcionamento dos mecanismos.

O fato é que, apenas via Lei Rouanet, já tivemos um investimento de mais de R$ 500 milhões em restauração de patrimônio histórico e museus desde o início do funcionamento da lei.

Além disso, temos feito um investimento direto significativo se levarmos em conta o quadro de déficit. Investimos R$ 193 milhões em patrimônio histórico no ano passado e esse ano foram R$ 170 milhões. Providências têm sido tomadas. Projetos de renovação de museu incorporam a necessidade de um plano de gestão de risco que precisa ser aprovado. Agora, obviamente temos um imenso déficit para dar conta.

BBC News Brasil - Do ponto de vista histórico, cultural e educacional, qual a dimensão dessa tragédia?

Sá Leitão - É uma das maiores tragédias que já tivemos no campo da cultura no Brasil.

A perda em relação ao acervo e o imóvel é imensa. Óbvio que o imóvel pode ser reconstruído, mas o acervo não pode ser recuperado.

BBC News Brasil - Já sabemos o que foi possível salvar e o que se perdeu?

Sá Leitão - Uma parte do acervo não foi afetada - o que estava na parte chamada horto, que é toda a parte de botânica.

A biblioteca central, com cerca de 500 mil livros, e uma parte do acervo de arqueologia foram poupados, mas, do que estava no prédio central, boa parte se perdeu. Estamos começando a fazer esse inventário e identificar o que não pode ser recuperado.

*Colaborou André Shalders, da BBC News Brasil em São Paulo

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Imagens vide: "BUDA MENDES/GETTY IMAGES", "TOMAZ SILVA/AGÊNCIA BRASIL", "BUDA MENDES/GETTY IMAGES" e "BUDA MENDES/GETTY IMAGES" respectivamente.

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Verba usada no Museu Nacional em 2018 equivale a 2 minutos de gastos do Judiciário e 15 minutos do Congresso

Este texto foi escrito por André Shalders - @andreshalders da BBC Brasil em São Paulo.

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[Museu arde em chamas no domingo: gastos com manutenção são mínimos há anos]

Mesmo detendo um acervo de 20 milhões de itens, o Museu Nacional custava muito pouco para o governo federal - especialmente quando seus custos são comparados a outros da máquina pública.

Os R$ 268,4 mil gastos pelo Museu em 2018 até agora equivalem, por exemplo, a menos de 15 minutos de gastos do Congresso Nacional em 2017, por exemplo - Câmara e Senado custaram R$ 1,16 milhão por hora no ano passado, segundo levantamento da Ong Contas Abertas, especializada em acompanhar os gastos do governo.

Todos os dados relativos ao Museu Nacional nesta reportagem foram levantados pela reportagem da BBC News Brasil por meio do Siafi.

A comparação com o Poder Judiciário é ainda mais desfavorável: os mesmos R$ 268,4 mil seriam capazes de manter a máquina judiciária funcionando durante menos de 2 minutos em 2017 - no ano passado, a Justiça brasileira custou R$ 90,8 bilhões, segundo o relatório Justiça em Números, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

[Apenas as paredes do Museu Nacional continuam de pé]

De tudo que foi gasto pelo Museu Nacional este ano, uma parcela muito pequena - R$ 31,3 mil - foi usada para manutenção física e reformas do prédio onde a instituição funcionava, no parque da Quinta da Boa Vista, no Rio.

Ali perto, o estádio do Maracanã consumiu cerca de R$ 1,3 bilhão em sua última reforma, cujo objetivo era prepará-lo para a Copa de 2014. O total gasto com a reforma do Maracanã é 5.022 vezes maior que o gasto pelo Museu Nacional até agora em 2018.

Em 2017, o Museu teve gastos da ordem de R$ 413 mil. É muito se comparado aos gastos de uma família, mas uma quantia muito modesta diante do Orçamento da União.

E é muito pouco mesmo na comparação com as cifras da corrupção no Brasil: o ex-diretor da Petrobras Pedro Barusco poderia "manter" a instituição durante 640 anos - em valores de 2017 - com os R$ 267 milhões que ele devolveu como parte de seu acordo de delação premiada, em 2017.

O mesmo valor de R$ 413 mil é também 15 vezes menor que os R$ 6,5 milhões que o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, e sua esposa Adriana Ancelmo gastaram com a compra de joias de 2000 a 2016.

Verbas em queda livre desde 2013

As causas do incêndio que destruiu o Museu neste domingo ainda não são conhecidas. Mas as dificuldades orçamentárias e investimentos mínimos em manutenção, reparos e segurança vêm sendo relatados por funcionários da instituição há décadas.

[Bombeiros levaram várias horas para controlar o fogo na noite deste domingo]

O maior baque ocorreu entre os anos de 2013 e 2015 - os gastos do museu caíram de R$ 1,04 milhão em 2013 para apenas R$ 397,4 mil em 2015 (em valores corrigidos pela inflação). Nos anos seguintes, esta capacidade se recuperou um pouco, mas continua baixa. Foram R$ 480 mil em 2016, em valores corrigidos pela inflação, e R$ 445 mil em 2017.

Embora o orçamento do museu ao longo dos anos tenha sido um pouco maior do que isto, os gastos efetivos da instituição são o mais importante se ser avaliado - no sistema brasileiro, o orçamento corresponde a uma autorização para gastar.

Gastos com manutenção: só R$ 252 mil desde 2014

Outra coisa que chama a atenção nos gastos do Museu Nacional é o quão pouco a instituição gastava efetivamente para renovar sua estrutura física. Desde 2014, o Museu Nacional gastou apenas R$ 252 mil para tal fim. A última reforma relevante foi em 2014: uma reforma na estrutura de refrigeração da Biblioteca Central.

Em 2018, por exemplo, foram gastos apenas R$ 31,3 mil com manutenção - o orçamento destinado à rubrica este ano era de cerca de R$ 50 mil. Por outro lado, este ano o Museu usou R$ 188 mil para realizar eventos na casa.

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Imagens vide: "REUTERS", "AFP" e "EPA" respectivamente.

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'Daqui a três dias, infelizmente, já cairá no esquecimento', diz ex-diretor do Museu da Língua Portuguesa sobre comoção com incêndio

Este texto foi escrito por Edison Veiga De Paris para a BBC News Brasil:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45377311

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[Museu fluminense tinha acervo composto de peças únicas, que jamais serão repostas]

O produtor cultural e bacharel em Direito Antonio Carlos Sartini reviveu os momentos mais tristes de sua vida quando viu as chamas que consumiam o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Em 21 de dezembro de 2015, ele era diretor do Museu da Língua Portuguesa, instituição cultural do bairro da Luz, em São Paulo, que também sofreu um incêndio de grandes proporções - o museu ainda não foi reaberto ao público.

Há uma diferença fundamental: ao contrário do museu fluminense, cujo gigantesco acervo era composto de peças únicas e que jamais serão repostas, a instituição paulistana, pela própria natureza, continha um material que pode ser reproduzido. O Museu da Língua Portuguesa, afinal, fora criado com essa premissa: seu acervo é a própria língua portuguesa, imaterial, e o material expositivo sempre foi baseado em reproduções, muitas vezes multimídia.

Sartini, na qualidade de ex-diretor do Museu da Língua Portuguesa, conversou com a reportagem da BBC News Brasil a respeito da tragédia que destruiu o Museu Nacional.

BBC News Brasil - O senhor viveu situação semelhante há três anos. O que passa na cabeça de um diretor de museu quando o prédio está em chamas?

Antonio Carlos Sartini - Passam tantas coisas na cabeça de um brasileiro que preza pela cultura e pela sua história, tantos pensamentos. Primeiro, uma tristeza muito grande, que beira quase uma raiva: a de perdermos um acervo tão importante. Em seguida, vem a reflexão: este acervo, do Museu Nacional, era ligado a uma universidade federal. É isso que vem sendo feito com nossas universidades federais?

BBC News Brasil - Como o senhor compara o ocorrido agora com o que aconteceu no Museu da Língua Portuguesa?

Sartini - É importante lembrar que eu era diretor-técnico do Museu da Língua Portuguesa. Havia uma equipe específica no museu para a infraestrutura e salvaguarda.

BBC News Brasil - Mas, como diretor, o que o senhor pensou na época?

Sartini - Não existem palavras que possam definir ou que possam realmente espalhar o que sente um diretor de uma instituição museológica, o que pensa um diretor de museu, quando vê sua instituição sendo consumida pelas chamas. Imagino a situação do Museu Nacional. Em nosso acervo, no Museu da Língua, o conteúdo não era material, pois tudo estava preservado em registro de áudio e vídeo. Tivemos uma perda humana, um bombeiro civil que trabalhava conosco. Mas eu imagino a situação do diretor do Museu Nacional. Deu sua vida, lutou, batalhou pela preservação, da melhor maneira possível de itens importantíssimos do acervo - e todos esses itens acabaram consumidos em questão de minutos, horas. Por um incêndio. Uma sensação que eu acho absolutamente inexplicável.

['Uma sensação que eu acho absolutamente inexplicável', diz ex-diretor de museu sobre incêndio]

BBC News Brasil - O Brasil vive um momento de crise econômica e política. Como imaginar investimentos em cultura em um cenário como o atual?

Sartini - Todos sabemos que o País vive uma crise sem precedentes. Ontem mesmo vi publicado nas redes sociais um quadro com os investimentos feitos no Museu Nacional, com recursos dos últimos anos. Não sei se os dados eram verdadeiros ou não. Mas só de olharmos aquele quadro já conseguimos ter um bom entendimento do que acontece, da falta de recursos financeiros.

BBC News Brasil - E tudo isso ainda considerando um prédio histórico...

Sartini - Um prédio antigo, com falta de investimentos. Em edifícios históricos, investimentos precisam sempre ser feitos e refeitos. Há toda uma questão de equipamentos, de segurança contra incêndios, de capacitação de funcionários que trabalham em prevenção e manutenção de equipamentos. O Brasil é um país que prefere investir milhões em novos museus em vez de olhar para os que já existem.

BBC News Brasil - O sentimento é que não se olha para o que já existe?

Sartini - No próprio Rio de Janeiro há bons exemplos de instituições que foram recém-inauguradas, com arquiteturas fantásticas, arquitetos estrangeiros. Verdadeiras obras-primas. Ao mesmo tempo, se esquece daqueles museus que fazem parte da nossa história, que fazem parte do nosso dia a dia, que abrigam nossa memória. Essa é uma grande falha dos administradores culturais, dos nomes responsáveis pela cultura no Brasil inteiro. Todos procurando novidades. Museus e equipamentos culturais novos aparecendo em todos os lugares, cheios de tecnologias, enquanto aqueles mais antigos, que abrigam a nossa história, estão esquecidos, no anonimato. Isto é muito grave. Acredito que estamos em um belo momento para se pensar em uma mudança de políticas públicas e culturais.

BBC News Brasil - O sentimento é de tristeza, impotência?

Sartini - É uma tristeza muito grande estarmos perdendo, dia a dia, nossa memória, nosso rico patrimônio. E pensarmos que este acervo estava sob a guarda de uma universidade federal e de uma universidade do Rio de Janeiro. Precisamos repensar as políticas públicas de educação, construídas ao longo de décadas neste país. Vimos a criação de uma série de universidades federais novas e importantes, mas o esquecimento total, a penúria, daquelas que já existiam. Ao mesmo tempo, uma série de museus novos, de encher os olhos, que atraem turistas e permitem aos patrocinadores a exposição da marca, que acabam viabilizando negócios aos milhões. Mas que acabam desviando recursos de instituições tradicionais, que merecem e precisam da nossa atenção. Foi um pouco da História do Brasil que se consumiu naquelas chamas.

['Em tragédias sempre vemos uma grande comoção, atualmente nas redes sociais, muitas manifestações e isto é importante. Muita indignaçãoo. Daqui a três dias, infelizmente, já cairá no esquecimento']

BBC News Brasil - Acredita que esta comoção pode trazer algum resultado?

Sartini - Em tragédias sempre vemos uma grande comoção, atualmente nas redes sociais, muitas manifestações e isto é importante. Muita indignação. Daqui a três dias, infelizmente, já cairá no esquecimento. É preciso uma postura mais firme, cobrando dos governos federal, estadual e municipal. Estamos em período eleitoral. E chegou a hora de falarmos um 'basta' para os políticos que vierem com projetos de novas obras, novas instituições. Não queremos mais. Queremos que eles olhem pelo que já existe e que não está sendo cuidado. Queremos que os recursos sejam utilizados para recuperar patrimônios como o Museu Nacional. Chegou o momento de mudar a política pública e o comportamento das pessoas, principalmente daqueles que têm a responsabilidade da cultura neste País.

BBC News Brasil - De modo prático: o que fazer para evitar tragédias como a do Museu Nacional ou mesmo do Museu da Língua?

Sartini - Sem dúvida nenhuma, investimento. E investimento adequado. Digo, capacitação de mão de obra, em todos os níveis. E acho que esta mudança de postura tanto por parte daqueles que fazem nossas políticas públicas como da parte das pessoas que atuam na área pública. É preciso um 'chega'. Não precisamos de mais teatros, mais museus, mais lindas e mirabolantes bibliotecas. É o momento de pararmos. Diante de uma crise profunda que o país vive e continuará vivendo nos próximos anos, é hora de fazermos uma análise de como estão os equipamentos culturais.

BBC News Brasil - Não precisamos de novidades, é isso?

Sartini - É esta a questão: precisamos de novidade ou é melhor cuidar daquilo que nós temos, olhar com uma lupa como estão nossas instituições culturais, nossos acervos, nossa história, nossa memória? Vamos parar de ser um país de novidades e pensar um pouco a nossa História. Mais do que nunca é isto que é extremamente importante.

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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Museu Nacional: fiação exposta, gambás e cupins entre os alertas ignorados que anunciavam tragédia



Esta matéria foi escrita por Nathalia Passarinho da BBC News Brasil em Londres:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45398964

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[Inspeção de 2004 já alertava para risco de incêndio no Museu Nacional. Nos anos que se seguiram, pedidos de investimentos foram feitos por funcionários]

Com a destruição do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, que pegou fogo no domingo, a expressão "tragédia anunciada" é mais uma vez usada para definir um incêndio catastrófico no Brasil.

Embora investimentos na instituição tenham sido reduzidos drasticamente desde o início da crise política e econômica - especialmente em 2018 -, alertas sobre risco de fogo, infiltração, inundação e até queda de gesso sobre a cabeça dos funcionários do museu começaram há mais de uma década, muito antes da situação do país se deteriorar.

Ainda em 2004, já havia o temor de que o prédio pudesse pegar fogo. Em 2016, um relatório elaborado pelo setor da Biblioteca do museu apontava para diversos problemas de manutenção; e o diretor do museu deu diversas entrevistas ao longo dos últimos anos alertando para a decadência do prédio que abrigava o maior acervo científico do Brasil e que foi residência da família real portuguesa.

"O museu vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, alas com infiltrações, uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico." Foi assim que, em 2004, o então secretário de Energia, Indústria Naval e Petróleo do estado do Rio de Janeiro, Wagner Victer, atual secretário estadual de Educação, descreveu a situação do Museu Nacional, após fazer uma visita ao local.

Em entrevista à Agência Brasil, na ocasião, ele apontou a precariedade das instalações elétricas, a existência de fiações expostas e a ausência de um sistema de combate a incêndio. À BBC News Brasil, Victer afirmou que ficou assustado com os riscos de incêndio que presenciou, ao fazer uma visita aleatória ao local.

[Pesquisadores e funcionários correram ao museu para tentar resgatar o que podiam, enquanto o prédio ardia em chamas]

"Fiz uma visita e fiquei horrorizado com o que vi como engenheiro, por isso resolvi vir à público na época. Muita gente me criticou dizendo que eu estava dando opinião num assunto que não cabia a mim", afirmou. O Museu Nacional é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro, que é mantida com repasses do governo federal.

"Do ponto de vista de engenharia, é inaceitável que um prédio daquela magnitude não tenha sistema intergrado de sprinkler (equipamento que libera água ao detectar focos de incêndio), para contenção imediata de fogo, ainda mais tendo material inflamável dentro."

Mais de 10 anos depois, o Museu Nacional firmou um contrato de financiamento de R$ 21 milhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para, finalmente, investir em reestruturação e na construção de um sistema de combate a incêndio. Mas o dinheiro só seria liberado após as eleições de outubro.

"Isso é uma perda não só para a cultura, mas para a educação também. Que essa desgraça muitas vezes anunciada sirva como uma ação para rever os procedimentos nas centenas de prédios tombados e museus que estão em situação de abandono. Tem que ter sistemas modernos de prevenção de incêndio", afirmou à BBC News Brasil o secretário de Educação do RJ.

'Dejetos de animais, gambás, infiltrações e goteiras'

E os problemas reportados ano após ano pelos funcionários do museu e por inspeções externas não se limitavam ao risco de que o prédio pegasse fogo.

O relatório de 2016 da Biblioteca do Museu mencionava "circunstâncias difíceis que perduram há anos". O documento cita infestação de animais e até o risco de queda do teto.

"O prédio da Biblioteca continua sofrendo com goteiras e infiltrações, principalmente na área de guarda do acervo", alertava o documento.

"Há morcegos e gambás nos forros e ferrugens nos ferros expostos das marquises, convivendo servidores e usuários com plásticos pretos sobre estantes inteiras e baldes por praticamente todos os espaços, dejetos de animais sobre as paredes e estantes e o risco de gesso ou pedaços de concreto caírem sobre alguém ou equipamentos."

[Relatório de 2016 da Biblioteca do Museu mencionava 'circunstâncias difíceis que perduram há anos']
Ataque de cupins
A situação era tão calamitosa que um ataque de cupins no final de 2017 impediu o acesso do público a uma das principais atrações do museu. Os insetos destruíram a base onde estava montado o Maxakalisaurus - o primeiro dinossauro de grande porte a ser montado no Brasil.

Para que a peça rara voltasse a ser exibida ao público, funcionários do museu e alunos de universidades organizaram uma campanha online para arrecadar fundos e viabilizar a reabertura da exposição, sem ter que depender da iniciativa do Poder Público.

Conseguiram R$ 58 mil - mais do que o total repassado em 2018 para a manutenção do museu todo.

Funcionários já haviam alertado para riscos em entrevistas

Além dos relatórios e inspeções, o apelo por investimentos e o alerta para as consequências do abandono do prédio foram feitos diversas vezes por funcionários e diretores do museu em entrevistas.

Mais recentemente, a Sociedade Brasileira de Geologia manifestou preocupação com a deterioração do museu numa carta divulgada no dia 24 de agosto, após 49º Congresso Brasileiro de Geologia.

Na lista de prioridades defendidas pelos especialistas que assinaram o documento, "apoiar a luta do Museu Nacional por mais recursos para sua restauração e revitalização" aparecia em primeiro lugar.

Em maio, perto das comemorações de 200 anos do Museu Nacional, o diretor da instituição, Alexander Kellner, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo que seriam necessários R$ 300 milhões, a serem investidos ao longo de 20 anos, para que o prédio fosse completamente reformado a ponto de garantir segurança e a exposição das principais peças do acervo.

"O maior acervo é este prédio, um palácio de 200 anos em que morou d. João 6º, d. Pedro 1º, onde foi assinada a Independência. A princesa Isabel brincava aqui, no jardim das princesas, que não está aberto ao público porque não tenho condições", disse ao jornal, na ocasião.

O público tinha acesso a apenas 1% das 20 milhões de peças, por falta de investimentos que viabilizassem a exposição. O orçamento anual do museu caiu drasticamente nos últimos cinco anos, de R$ 531 mil, em 2013, para R$ 54 mil, em 2018.

O dinheiro é repassado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro que, por sua vez, é mantida com recursos do governo federal. O orçamento da UFRJ caiu cerca de 20% de 2014 a 2018, segundo informações publicadas no site da universidade.

'Capacidade reduzida de investimento'

Em entrevista à BBC News Brasil, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, culpou os governos anteriores e a UFRJ pela situação de precariedade do museu. A BBC News Brasil entrou em contato com a assessoria da UFRJ, que não respondeu até a publicação desta reportagem.

"É importante frisar que o Museu Nacional não integra o sistema do Ministério da Cultura. Ele pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro. E as universidades têm autonomia administrativa, financeira e didática. O museu não integra o nosso organograma e orçamento", disse Sérgio Sá Leitão

Ao ser questionado pela BBC News Brasil se o governo federal não teria responsabilidade já que o orçamento da UFRJ foi reduzido durante o governo Michel Temer, ele afirmou:

"De dois anos para cá, repasses foram reduzidos em várias áreas porque os governos anteriores quebraram o Brasil. Levaram o país à pior recessão da história, em 2015 e 2016, ao maior déficit fiscal da história. É uma grande situação de descalabro. Isso fez com que a capacidade de investimento do governo federal fosse reduzido", justificou.

Sérgio Sá Leitão também afirmou que ajudou a negociar o financiamento de R$ 21 milhões do BNDES ao Museu Nacional, que sairia do papel em novembro.

"Quando eu assumi, o ministério em julho do ano passado, eu me dispus a ajudar o museu nacional, considerando toda a sua relevância. Graças a esse esforço coordenado, foi possível captar esse financiamento de 21 milhões para o projeto de revitalização", afirmou.

"Lamentavelmente, esse esforço não surtiu efeito a tempo. O projeto começaria a ser realizado agora."

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Independência, abdicação e 'primeiro toma-lá-dá-cá': a história do Brasil testemunhada pelo palácio incendiado no Rio

Este texto foi escrito por Paula Adamo Idoeta - @paulaidoeta Da BBC News Brasil em São Paulo:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45377088

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[Edifício engolido por incêndio foi a primeira residência da monarquia portuguesa no Brasil e testemunhou momentos-chave da história do país]

O incêndio no Museu Nacional, neste domingo, destruiu, além de um acervo de 20 milhões de itens, o interior de um edifício que testemunhou momentos-chave da história da fundação do Brasil.


O antigo Palácio Imperial de São Cristóvão, edificação em estilo neoclássico dentro da Quinta da Boa Vista, foi a primeira residência da monarquia portuguesa no Brasil, servindo de cenário para episódios que, segundo historiadores, já marcariam relações escusas do setor público brasileiro com entes privados.

"Ali moraram o rei D. João 6º, os imperadores D. Pedro 1º e D. Pedro 2º, além da princesa Isabel e de outros príncipes e princesas", diz o artigo Quinta da Boa Vista: De Espaço de Elite a Espaço Público, publicado em 2000 pelo museólogo João Carlos Ferreira e pela professora de arquitetura Angela Maria Moreira Martins.

"Foi o lugar de todos os rituais importantes da monarquia portuguesa e depois da família imperial brasileira", diz à BBC News Brasil a historiadora Mary Del Priore. "É uma página da nossa história que perdemos (com o incêndio)."

Chegada da corte - e do 'toma-lá-dá-cá'

Antes de ser conhecido como Quinta da Boa Vista, o lugar era chamado de "Quinta do Elias", por pertencer ao próspero comerciante e traficante de escravos luso-libanês Elias Antonio Lopes.

Ele cedeu sua propriedade a D. João assim que a corte portuguesa chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, relata o autor e historiador Laurentino Gomes - que vê o episódio como "um símbolo do toma-lá-dá-cá na história política brasileira".
[Ali, no palácio, se desenrolaram também alguns exemplos de 'toma-lá-dá-cá' e 'beija-mão' na política nacional]

"Em retribuição pelo generoso presente, o negociante de escravos Elias Antonio Lopes seria um dos homens que mais se enriqueceriam e ganhariam títulos e honrarias nos 13 anos da corte portuguesa no Brasil", escreveu Laurentino Gomes - autor dos livros de história 1808, 1822 e 1889 - nesta segunda-feira em sua página no Facebook.

"D. João 6º havia chegado empobrecido ao Brasil, desfalcado de sua grandeza, e no Brasil a riqueza estava na mão dos traficantes de escravos", explica à BBC News Brasil a historiadora Isabel Lustosa. "E eles queriam agradar o rei, se beneficiar de sua presença. Elias entregou sua propriedade e acabaria recebendo (em troca) importantes concessões de serviços."

Posteriormente, ao longo de sua história como residência da família real, o Palácio Imperial de São Cristóvão foi também palco de algumas das chamadas cerimônias de "beija-mão" - sessões em que os súditos se ajoelhavam perante D. João 6º (e, mais tarde, D. Pedro 1º) para pedir favores e se sentir próximos a seus "pais" (como os imperadores eram vistos à época), prossegue Lustosa.

Processo de independência do Brasil

A Quinta da Boa Vista que fora entregue por Elias Antonio Lopes a D. João 6º "era (uma edificação) simples, mas a família real foi reformando, fazendo cozinha e cocheiras no fundo e mais tarde intervenções internas para se criarem aposentos para a Imperatriz Leopoldina", relata Mary Del Priore.

Maria Leopoldina é, inclusive, uma importante protagonista da vida palaciana. Lustosa conta que a mulher de D. Pedro 1º passou a maior parte da sua vida e morreu no Palácio Imperial de São Cristóvão. Ali, no papel de monarca regente enquanto D. Pedro viajava a São Paulo, ela escreveu as cartas advertindo o marido de que Portugal exigia a volta dele.

Essa viagem de D. Pedro culminaria na proclamação da independência do Brasil, comemorada em 7 de setembro. De volta ao Rio, é no Palácio Imperial que ele oficializaria a documentação da separação do Brasil em relação a Portugal.

[O Museu Nacional foi idealizado por D. João 6º e transferido ao Palácio Imperial após a proclamação da República]

Abdicação de D. Pedro 1º


Na época do Brasil imperial, o principal lugar de onde os monarcas despachavam era o Paço da Cidade, na Praça XV, Centro do Rio. Mas a residência imperial acabava sediando muitos dos encontros e eventos oficiais, explica à BBC News Brasil Marcos Veneu, pesquisador da Casa de Rui Barbosa e professor de história da PUC-Rio.

Foi no Palácio Imperial que D. Pedro 1º escreveu a carta de abdicação ao trono, em favor de seu filho, que viraria D. Pedro 2º.

"Usando do direito que a Constituição me concede, declaro que, hei mui voluntariamente, abdicado na pessoa do meu muito amado e prezado filho, o sr. D. Pedro de Alcantara. Boa Vista, sete de abril de mil oitocentos e trinta e um, décimo da Independência e do Império. Pedro."

A abdicação foi a culminação de um grande processo de desgaste político e crise de popularidade enfrentado por D. Pedro 1º, alvo de crescentes críticas por parte da elite brasileira, a qual se sentia preterida em relação à elite de origem portuguesa.

A transição para a República

Mais tarde, no final do século 19, um levante político-militar abalaria a sustentação de D. Pedro 2º e resultaria na Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.

E foi assim que o palácio que abrigou a monarquia se converteu, entre 1890 e 1891, na sede da Assembleia Constituinte republicana.

"Foi nos corredores do palácio imperial que ocorreram os debates da primeira Constituição Republicana do Brasil", explica Marcos Veneu.

[Aquarela de cerca de 1830-34 do Paço Imperial, com o atual museu ao fundo, que foi doado por traficante de escravos a D. João 6º]

Museu de 'curiosidades'


No ano seguinte à Assembleia, em 1892, o palácio passou a abrigar o acervo do Museu Nacional. Este havia sido criado anos antes, em 1818, pelo próprio D. João 6º, e inicialmente fora instalado no Campo de Santana, Centro do Rio.

"O museu foi idealizado por D. João como um gabinete de curiosidades, um museu de história natural, para abrigar acervo de zoologia, história antiga e botânica, por exemplo. As coleções científicas do acervo (incendiado) eram preciosíssimas, inclusive com coleções de (história) de tribos indígenas que já desapareceram", explica Veneu.

"E sempre foi além de um espaço de exposição - era também um local de pesquisa, que nesse sentido continua a existir mesmo após o incêndio."

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Em 2017, mais brasileiros foram ao Louvre, em Paris, do que ao Museu Nacional

Este texto foi escrito por Rafael Barifouse Da BBC News Brasil em São Paulo para o portal BBC Brasil:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45402234

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[Museu Nacional foi fundado em 6 de agosto de 1818 por Dom João 6º]

O Museu Nacional teve menos visitantes em 2017 do que o número de brasileiros que visitou o Museu do Louvre no mesmo ano.

O Museu Nacional registrou 192 mil visitantes em 2017, segundo informou a assessoria de imprensa da instituição à BBC News Brasil.

No mesmo período, 289 mil brasileiros passaram pelo Louvre, em Paris, na França, uma das principais instituições de arte do mundo, segundo registros do próprio museu.

O número de brasileiros que

visitaram o museu francês é 50,5% superior à visitação total da instituição brasileira.

[Louvre teve 8,1 milhões de visitantes em 2017]

O Louvre teve um aumento de 82% do número de visitantes do Brasil no ano passado em relação a 2016. Foi o segundo maior crescimento de público de um determinado país - os russos lideram com 92%.

Os brasileiros foram a terceira nacionalidade que mais visitou a instituição, atrás apenas de americanos e chineses.

Representaram 3,5% dos 8,1 milhões de visitantes do Louvre em 2017.

Museu tinha rico acervo de antropologia e história natural


Localizado na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, o Museu Nacional fica abrigado no Palácio de São Cristóvão, gravemente atingido pelas chamas neste domingo.

O museu foi fundado em 6 de agosto de 1818 por Dom João 6º e é o mais antigo do país - havia acabado de completar 200 anos.

Também era uma importante instituição científica, administrada atualmente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Tinha um dos mais ricos acervos de antropologia e história natural da América Latina, com mais de 20 milhões de itens.

Muitos deles eram exemplares únicos, como fósseis humanos e de dinossauros, múmias e utensílios de civilizações antigas.

Número de visitantes aumentou no ano passado


Os 192 mil visitantes que o Museu Nacioanal teve em 2017 significaram um aumento de 60% em relação ao ano anterior, quando 120 mil pessoas passaram por ali.

A título de comparação, o Museu Imperial, em Petrópolis, recebeu 400 mil visitantes no ano passado, mais que o dobro.

Esta é a instituição que lidera a lista de visitação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), uma autarquia federal responsável por 31 instituições culturais.

O Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, em Minas Gerais, foi o segundo mais visitado na relação do Ibram, com 174.382 pessoas.

O Museu Histórico Nacional, também no Rio, vem em terceiro, com 137.479 visitantes no ano passado.

"O Museu Nacional tinha um bom número de visitantes quando comparamos com outros museus do país, levando em consideração que seu acervo é fixo e ele não tem novidades o tempo todo ou exposições temporárias com grandes nomes", diz Nelson Colás, diretor de Relações Institucionais da Federação de Amigos de Museus do Brasil (Feambra).

"Mas é muito pouco quando pensamos na riqueza desse acervo. É um museu que cumpre as três principais funções de uma instituição assim: preserva o patrimônio, educa e diverte. Esse número poderia ser triplicado por meio de incentivos a visitações de escolas e universidades, mais divulgação e uma programação de eventos. Durante a Copa e a Olimpíada, quase não ouvimos falar dele, por exemplo."

Colás avalia que locais como o Museu Nacional poderiam ter tirado proveito de um bom momento vivido por instituições culturais.

"O número de visitantes vem crescendo aos poucos. Não dá para comparar com o Louvre ou o Museu do Prado, na Espanha, ou o Vaticano, na Itália, que têm um número impressionante de obras e exemplares icônicos, a nata do que existe no mundo, mas, aos poucos e graças às grandes exposições, as pessoas estão adquirindo o hábito de ir ao museu."

'Pouco acolhedor para quem se animasse a visitá-lo'

Com um orçamento de R$ 520 mil por ano, o Museu Nacional não recebia integralmente da UFRJ esta verba desde 2014.

Após o incêndio que destruiu parte do acervo, o jornalista e escritor Laurentino Gomes publicou uma crítica ao estado da instituição.

"Abandonado, desleixado, com um acervo rico porém esquizofrênico, pouco acolhedor para quem se animasse a visitá-lo, o Museu Nacional era um símbolo do que nos tornamos nos últimos anos, uma caricatura do que gostaríamos de ser e e nunca fomos", escreveu Gomes.

"O acervo era confuso e pouco didático, entregue aos maus cuidados de funcionários e curadores burocráticos, sem inspiração e entusiasmo. Nunca foi, de fato, um museu bem amado."

[Incêndio destruiu parte do acervo do Museu Nacional]

Em meio aos preparativos para o 200º aniversário da instituição, comemorado em junho, o paleontólogo Alexander Kellner, então recém-empossado como seu diretor, disse que tinha a meta de elevar o número de visitantes para 1 milhão até o fim do seu mandato, em 2021.

Uma forma de fazer isso e compensar a falta de verbas, de acordo com Kellner, seria firmar parcerias com empresas.

Um contrato de patrocínio do BNDES de R$ 21,7 milhões havia sido fechado há três meses e seria usado na restauração do prédio histórico.

"Passaremos o ano inteiro procurando investimentos que nos permitam melhorar as exposições", disse Kellner em entrevista ao jornal O Globo em fevereiro.1 Content here23

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'Metáfora da situação do Brasil': imprensa internacional destaca incêndio no Museu Nacional



Este texto foi publicado originalmente no portal da BBC Brasil:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45395208

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[Notícia do incêndio foi principal destaque da capa do site da BBC News]

O incêndio que atingiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro neste domingo é destaque na imprensa internacional.

A notícia ganhou a manchete do site da BBC News, que traz uma análise da jornalista Katy Watson, correspondente da BBC na América do Sul, sobre a tragédia.

Segundo ela, o incêndio pode ser visto como uma "metáfora" da situação atual do país.

"Não é apenas a história brasileira que está em chamas. Muitos veem isso como uma metáfora para a cidade - e para o país como um todo."

"O Rio de Janeiro está em crise. A violência crescente, o profundo declínio da economia e a corrupção na política se combinaram para tornar a cidade uma sombra do que já foi um dia."

[Capa do site do jornal britânico The Guardian destaca 'perda incalculável']

E acrescenta:

"Este foi um museu por muito tempo ignorado e subfinanciado - agora, com consequências devastadoras para o patrimônio histórico do Brasil."

O jornal britânico The Guardian, que classificou o incêndio como uma perda "incalculável", também fez um paralelo com a situação do país em seu site, ressaltando os altos níveis de violência e desemprego.

"Alguns brasileiros viram o fogo como uma metáfora para os traumas do país, que enfrenta níveis terríveis de criminalidade e os efeitos de uma recessão que deixou mais de 12 milhões de pessoas desempregadas", diz um trecho da reportagem.


O artigo cita diversos depoimentos, entre eles o do antropólogo Mércio Gomes, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), que comparou o incidente ao incêndio da biblioteca de Alexandria, em 48 a.C.

"Nós, brasileiros, temos apenas 500 anos de História. Nosso Museu Nacional tinha 200 anos, mas é o que tínhamos, e está perdido para sempre."

O incêndio também repercutiu na imprensa americana. O New York Times destaca a "ameaça a centenas de anos de história", lembrando que a instituição estava abandonada.

['Ameaça a centenas de anos de História', diz reportagem do site do NYT]

"O museu foi abandonado nos últimos anos, enquanto o próprio país lutava contra uma economia estagnada e instabilidade política."

"De acordo com relatos da imprensa local, os professores que trabalham no museu chegaram a recolher dinheiro para ajudar a pagar pelos serviços de limpeza", acrescenta o texto.

O site do jornal americano também traz uma lista das peças mais importantes do acervo do museu, como Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, e o meteorito Bendegó.

A revista americana Forbes afirma que "os dias de glória do museu tinham ficado para trás" e ressalta os problemas financeiros enfrentados pela instituição e pela cidade.

"A destruição do Museu Nacional do Rio é emblemática de uma cidade que sofre com anos de corrupção política", diz trecho da reportagem publicada no site.

O jornal argentino Clarín, por sua vez, classificou o incêndio como uma tragédia. Entre alguns depoimentos, a publicação cita uma declaração do vice-diretor da instituição, Luis Fernando Duarte, que atribui a "situação trágica" à "falta de apoio e de consciência" do poder público.

[Clarín cita 'tragédia' em reportagem publicada no site]

A reportagem lembra ainda que há 40 anos, em 8 de julho de 1978, um incêndio atingiu o Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, destruindo importantes obras do acervo, "como pinturas de Pablo Picasso, Salvador Dalí e Joaquín Torres-García, que eram parte de uma exposição temporária".

Já o jornal francês Le Monde destacou em seu site os "200 anos de história que desapareceram" e publicou um vídeo com imagens do incêndio.

[Reprodução da reportagem publicada no site do jornal francês Le Monde]

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Tópicos relacionados no portal da BBC Brasil

História:
https://www.bbc.com/portuguese/topics/03eb3674-6190-4cd7-8104-1a00991d67a3

Imprensa:
https://www.bbc.com/portuguese/topics/10164f51-11a5-42a0-8946-ffbead9a5413

Brasil:
https://www.bbc.com/portuguese/topics/15f1bcf6-b6ab-48e8-b708-efed41e43d31

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Antropologia:
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Jornalismo:
https://www.bbc.com/portuguese/topics/db766560-6b05-4eb5-b690-4c6118e0faf1



Museu Nacional: Em 10 anos, fogo dizima ao menos 8 prédios com tesouros culturais e científicos do país

Este texto foi publicado originalmente no portal da BBC Brasil:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45348664

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[Incidente no Museu Nacional foi o oitavo incêndio em dez anos a atingir prédios do patrimônio cultural e científico do país]

Nos últimos anos, o Brasil assistiu a pelo menos 8 grandes incêndios que consumiram prédios que guardavam acervo com valor artístico, histórico e científico.

Neste domingo, o país perdeu parte da sua história guardada no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Os bombeiros levaram seis horas para conter as chamas no mais antigo museu do Brasil, que tinha 20 milhões de itens e apresentava problemas de manutenção.

Em julho de 1978, o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro viu telas de Picasso, Miró, Dalí e de centenas de artistas brasileiros queimarem em 40 minutos de incêndio, conforme o relato de jornais na época.

Do acervo, de mais de mil peças, restaram apenas 50. O trauma foi tamanho que somente nos anos 1990 o Brasil reconquistou a confiança de instituições internacionais para sediar exposições de grande porte.

Nos últimos dez anos, contudo, o fogo voltou a destruir museus, teatros e institutos. Além do Museu Nacional do Rio, outros 7 prédios, listados a seguir, sofreram perdas históricas com incêndios.

1. Teatro Cultura Artística, 2008

Destruído por um incêndio que durou mais de quatro horas em 2008, o Teatro Cultura Artística, na região central de São Paulo, até hoje está coberto por tapumes.

Foi inaugurado em 1950, com um concerto de Heitor Villa-Lobos.

O teto desabou, uma sala foi inteiramente incendiada e uma outra ficou alagada. Além de dois pianos e equipamentos de som e iluminação, foram destruídos o figurino das peças O Bem Amado, do ator Marco Nanini, e Toc Toc.

O afresco de Di Cavalcanti na fachada, com 48 metros de largura e 8 metros de altura, é um dos poucos pontos da estrutura original com condições de ser restaurado.

As causas do incêndio são desconhecidas. Sabe-se apenas que ele começou perto da cortina do palco.

No decorrer da última década, vários prazos para o início da recuperação não foram cumpridos perdidos. Desde março, contudo, o local está em obras, e a expectativa é de que o novo teatro fique pronto em 2021.

[Projeto da nova fachada do Cultura Artística, que pegou fogo em 2008 e está previsto para ser reinaugurado em 2021]

2. Instituto Butantan, 2010

Em maio de 2010, um incêndio atingiu o laboratório de répteis do Instituto Butantan, na Zona Oeste de São Paulo, destruindo um dos principais acervos de cobras do mundo.

O fogo atingiu o prédio em que cientistas pesquisavam cobras, aranhas e escorpiões. Parte dos animais foi retirada com vida do local e levada para um local seguro.

Segundo o Instituto Butantan, a coleção atingida pelo incêndio possuía cerca de 77 mil cobras catalogadas e cerca de 5 mil em processo de registro.

"É uma tragédia da proporção do incêndio da biblioteca de Alexandria", afirmou à imprensa, na ocasião, Francisco Luiz Franco, que era curador da coleção de serpentes do Instituto Butantan, referindo-se ao fogo que consumiu a maior biblioteca da Antiguidade.

Mais de 100 anos de História e de conhecimento acumulado, ainda segundo o especialista, virou pó com as chamas.

3. Memorial da América Latina, 2013

Em novembro de 2013, um incêndio atingiu o Memorial da América Latina, em São Paulo, e destruiu o auditório Simón Bolívar, onde havia uma tapeçaria de 800 metros quadrados da artista Tomie Ohtake.

Onze integrantes do Corpo de Bombeiros e um brigadista ficaram feridos enquanto tentavam conter as chamas.

O laudo do Instituto de Criminalística de São Paulo apontou um curto-circuito como causa do incêndio. Segundo a perícia, pouco antes do início do fogo, havia faltado luz no local e um gerador reserva fora acionado, o que pode ter provocado uma sobrecarga de energia.

4. Museu de Ciências Naturais da PUC de Minas Gerais, 2013

Em janeiro de 2013, um incêndio destruiu réplicas, cenários, fiações e pisos do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, em Belo Horizonte. A instituição tem um dos maiores acervos de fósseis de mamíferos do Brasil.

Na ocasião, uma funcionária do serviço de limpeza foi resgatada, sem ferimentos, de uma sacada do terceiro andar do prédio, depois de ter ficado cercada pelas chamas.

O fogo atingiu principalmente o segundo andar, onde havia três exposições: uma sobre a vida no Cerrado, outra sobre o paleontólogo dinamarquês Peter Lund, e uma sobre o Período Pleistoceno.

Na ocasião, o bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, dom Joaquim Mol, disse que "o prejuízo científico foi incalculável".

5. Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios, 2014

Fundado em 1873, o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, no centro da capital paulista, reabriu as portas como centro cultural somente no mês passado, depois de ficar mais de quatro anos fechado.

Em 2014, um incêndio destruiu seu galpão centenário.

O Liceu se tornou referência na capital paulista como escola de ensino técnico profissionalizante e de formação geral. No início dos anos 1920, o engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo assumiu sua direção, e seu escritório contratou obras para serem executadas por artesãos e alunos.

Em 1930, a instituição desenvolveu e fabricou o primeiro hidrômetro (instrumento usado para medir a velocidade ou o escoamento da água) inteiramente nacional.

O incêndio de fevereiro de 2014 queimou quadros, esculturas, móveis antigos e réplicas em gesso. Entre as 35 peças danificadas, estava a versão em gesso da Pietá, de Michelangelo, cujo original em mármore está na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Quando pegou fogo, em razão de um curto-circuito, o auto de vistoria dos Bombeiros estava vencido.

6. Museu da Língua Portuguesa, 2015

[Obra de restauração do Museu da Língua Portuguesa, que pegou fogo em 2015]

Em 21 de dezembro de 2015, chamas tomaram conta dos três andares e da cobertura do Museu da Língua Portuguesa, no centro de São Paulo, que naquela segunda-feira estava fechado para o público.

Tudo virou cinza. À época, Isa Ferraz, curadora do museu, classificou o incêndio como uma "tragédia". O bombeiro civil Ronaldo Pereira da Cruz, que atuava no museu, morreu ao abrir uma porta enquanto o prédio pegava fogo.

Inaugurado em março de 2006, era um dos museus mais visitados do Brasil e da América do Sul, e o primeiro do mundo dedicado exclusivamente a um idioma.

A estrutura ainda está sendo reconstruída, e a previsão é que fique pronta no ano que vem. Os responsáveis pela restauração estão aproveitando para reformar a fachada até de áreas que não foram atingidas pelo fogo, como a torre do relógio e as paredes do saguão da estação da Luz.

7. Cinemateca Brasileira, 2016

Em fevereiro de 2016, a Cinemateca Brasileira perdeu de forma definitiva 270 títulos. Um incêndio em um dos quatro depósitos do galpão na parte de trás do terreno na Vila Clementino, bairro da zona sul de São Paulo, destruiu cerca de 731 - dos quais 461 felizmente possuía cópia de segurança - de seus 44 mil títulos, entre cinejornais com cenas do noticiário político e curtas-metragens.

Os rolos carbonizados eram feitos de nitrato de celulose, substância inflamável usada em películas cinematográficas até os anos 1950.

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Imagens vide: AFP, http://CULTURAARTISITCA.COM.BR, ROVENA ROSA/AGÊNCIA BRASIL.

Tópicos relacionados no portal da BBC:

História:
https://www.bbc.com/portuguese/topics/03eb3674-6190-4cd7-8104-1a00991d67a3

Ciência:
https://www.bbc.com/portuguese/topics/0f469e6a-d4a6-46f2-b727-2bd039cb6b53

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https://www.bbc.com/portuguese/topics/15f1bcf6-b6ab-48e8-b708-efed41e43d31

Arqueologia:
https://www.bbc.com/portuguese/topics/1b508152-6d1f-46d4-80b2-a2d670e5f660

Arte:
https://www.bbc.com/portuguese/topics/37dcc888-51a7-4470-82d8-8ef2b811d482



Quem isto ouvir e contar em pedra se há de tornar...